Publicado por

Publicado em
07 de Janeiro de 2005

Arquivo
Diário do Sargaçal

Tags

Gelo na estrada e no campo


Já tinha eu passado o Marco de Canavezes, quando entro numa curva bem de lado. Era uma camada de gelo, o dia prometia ser frio.

Quando cheguei ao terreno, a primeira coisa foi colocar as coberturas de protecção nos citrinos. Mesmo na hora, mas infelizmente faltaram três (comprei 12). Duas laranjeiras estão num local mais abrigado e aguentam-se, a outra já está a sofrer. Para a semana tenho de levar mais coberturas sem falta.
Na primeira tangerineira, o plástico estava duro com uma placa de gelo por cima. Segundo o termómetro do jipe, estavam 4°C. Queria tirar umas fotografias a uns motivos gelados, mas resolvi deixar para o dia seguinte.
O Cláudio andava lá em cima nas limpezas e lá apareceu para passarmos directamente às plantações. Plantamos nove árvores. Para minha surpresa, a leira onde estamos a plantar esse pomar já tinha mais um monte de detritos vegetais à entrada. Ora, eu na última vez considerei aquilo limpo, de onde apareceu mais este monte? Tinha sido o Cláudio que resolver dar uma passagem com a roçadeira. Já sem contar depois mais tarde, com mais uma esfregadela junto à levada (que lá passa). Mais uma montanha de lixo. Se me ponho com detalhes, daqui a um ano ainda ando a plantar (estas) árvores!
Depois fomos fazer quatro buracos para Nogueiras (Juglans regia) que o meu pai ia comprar. Consta que são de uma variedade francesa muito vigorosa. Também ficaram quatro buracos para transplantar os pessegueiros.
Comprometi-me a apanhar três ou quatro carrelas de folhas por dia e lá fui cumprir o prometido. O monte da folhada cresce a olhos vistos. Depois também terminei mais uma caixa de água (ainda faltam umas quatro ou cinco).
Fomos para a Fonte do Cavalo, onde estavam detritos por todo o canto, ainda do ano passado. Erro crasso, que não repetirei. Deixar tudo espalhado, ou seja não completar uma limpeza, duplica o trabalho. As silvas e as ervas crescem lá pelo meio, escondendo a madeira e o resto, e é difícil de recolher e amontoar tudo. Uma seca. Lá amontoamos o que conseguimos e fizemos uma fogueira. Estava quase noite e começou a estar um frio que nem o trabalho aquecia, foi a primeira vez que me aconteceu isso. Estava gelado, apesar da actividade. A noite estava sem Lua, mas mesmo assim ficamos a queimar coisas até às 20h.
Quando cheguei ao jipe tinha uma camada de gelo no vidro da frente e nos vidros do lado do condutor. Raspei o melhor que pude e arranquei para o “Angola” que era onde ia dormir (é um café/pensão no centro de Cinfães). O termómetro marcava -1°C. Combinei ir jantar com o Cláudio ao restaurante “O Meu Gatinho”.
No Angola, esperava-me a surpresa da noite: o belo banho reconfortante de água morna (mais para o frio). Sofri ignobilmente. Já não me lembrava de bater o dente a tomar banho. Aliás, acho que só no mar batia o dente — há muitos anos. Não se pode dizer que tenha ficado a ferver, mas fiquei chateado.
No restaurante, sexta-feira à noite, início do mês, éramos os únicos clientes. O termo “pasmaceira” passou-me pela mente. Deve ser muito difícil tentar andar para a frente com um estabelecimento com alguma classe e muita simpatia, numa vila do interior como Cinfães.
À saída perguntei que música em francês é que estava a tocar. Seria o último disco do Rodrigo Leão, uma surpreendente revelação.
A propósito de dois cães que estão sempre lá à porta, fiquei a saber que a senhora é do Porto, mudou-se para lá e que de início foi muito complicado, nomeadamente pela quantidade de animais maltratados e abandonados que deambulam por lá sem destino — achou chocante. Tem cinco em casa. Aqueles dois foram adoptados pelos professores da escola. A semana passada foi um Grand-Danois lindo, que felizmente arranjou dono. Andava lá outro com ar triste, abandonado recentemente por caçadores (ou pelo menos era de caça). Um veterinário que vai lá almoçar disse-lhe que agora por causa do “chip”, lhes dão um tiro em vez de os abandonarem. Onde foi que já ouvi isto? São os verdadeiros humanos.


Ainda sem comentários


Comentar este texto






Voltar à primeira página Voltar ao topo