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  • Stv: B-52's "Party Out of Bounds"

Publicado por
José Rui Fernandes

Publicado em
22 de Janeiro de 2005

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Sociedade

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As mãos sujas de sangue

Foi artilharia todo o dia. E cães a ladrar. E berros. Que situação incomodativa. Estavamos a plantar cerejeiras, quando aparece um personagem vestido pitorescamente, incluindo boina e faca de mato. Exalava felicidade. Não pude deixar de notar que tinha as mãos sujas de sangue.

Começa a explicar que estavam numa batida ao javali, que atingiram um que foi morrer junto do ribeiro, mas na outra margem. A minha reacção foi elucidativa. Continuei a olhar para ele. Já em desespero de causa, perguntou-me se falava português.
Comecei por perguntar se era legal o que andavam a fazer, para ali aos tiros tão perto dos campos onde há pessoas a trabalhar. Legalíssimo! Aliás, tão legal, tão legal, que só faltou dizer que ali o ilegal era eu. Tinham autorização da Direccção Geral das Florestas, traziam fiscalização, tudo nos conformes da lei. E podiam andar onde queriam desde que não arrombassem ou estragassem nada. É o país que temos. A saque.
Passando ao assunto principal, queria o destemido caçador, que lhe desse passagem pelo estradão para ir de jipe buscar o javali. Negativo. Pelo meu terreno não passam. Ainda tentou uma argumentação que era vizinho, que se eu precisasse de passar nos terrenos dele, blá, blá. Expliquei-lhe que não ia de jipe para os terrenos dele, nem de ninguém. E a pé também não.
Lá se foi embora, sempre de sorriso nos lábios. Não ia ser um proprietário desmancha prazeres como eu, que lhe ia estragar a alegria da matança.
A propriedade privada, apesar do nome, não significa nada para os caçadores. Nem como proprietário tenho direito à não caça. Só pagando e entregando em suporte informático a planta do terreno. O que faremos mal tenhamos a planta. Que mais podemos fazer, quando o estado é o maior gatuno?
E também há a questão das armas, que nunca deviam andar como andam, na mão de toda a gente. Uma notícia azedou-me o jantar. Um velho tresloucado matou três pessoas numa aldeia com apenas cinco habitantes. Mais um crime hediondo com uma caçadeira — felizmente devidamente legalizada. O jornalista, na infinita perspicácia que os caracteriza, queria saber da legalidade da arma do crime e da pistola com que o autor se suicidou posteriormente. A pistola lamentavelmente não estava legal, o comandante da GNR lá do sítio desdobrou-se em explicações. Por muito que se fiscalize, é impossível garantir que as armas estejam todas legais.
Os caçadores, mesmo tendo o direito a possuir armas nunca as deviam ter em casa. Deviam ser obrigados a depositá-las num posto policial, onde as levantariam em dia de caça. E deviam pagar, para a polícia garantir a segurança desse armamento. Evitavam-se muitos acidentes com crianças. Caça fora de época. E muitos dos crimes violentos, que se praticam todos os anos por esse país fora, com essas legalíssimas armas.



1 Comentário

Comentado por
Maria
24 de Janeiro 2005 / 19:40

Ao ler este texto não pude deixar de sentir alguma revolta…
Preocupa-se o governo com leis de castração da liberdade como a proibição de fumar em locais públicos mas com o respeito pela propriedade privada e com o porte de armas, pelos vistos, é praticamente indiferente! Mesmo quando, todos os dias, crimes macabros são cometidos com caçadeiras ou quando temos as nossas propriedades privadas invadidas por outro tipo de assassinos… Não os das pessoas mas os dos animais! Continuem assim… afinal é este o estado de direito que temos! Não terão, certamente, é o meu apoio e o de muitos outros portugueses.
Peço desculpa pelo desabafo mas depois de ler este texto foi impossível resistir a expressar a minha opinião!
M


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