No Rio Bestança


Iniciamos a caminhada no Sargaçal e fomos em direcção ao cemitério de Vila de Muros. Há um percurso pedrestre demarcado, pela Associação para a Defesa do Vale do Bestança, segundo creio. Descemos até à Ponte de Covelas. Vê-se bastante lixo pelo caminho. Na ponte, a beleza é por demais evidente.

A vegetação está no seu máximo anual. Muito densa na verdade. Fomos na direcção do Poço Negro, subindo o rio. Pelo caminho, vários moínhos abandonados.
Enquadrando estas velhas construções no contexto certo, até dói imaginar como teria sido a vida naqueles tempos. Agora, as silvas avançam, tomando conta de tudo. Não se vão passar muitos anos até que os caminhos se tornem totalmente intransitáveis.
O lixo de toda a espécie, popula pontualmente o leito do rio. No Poço Negro, o Cláudio resolveu dar um mergulho. Eu andei para trás e para a frente a tirar fotografias. Que sossego. O rio é tudo o que dizem e ainda mais.
Avançamos. É beleza por todo o lado. Só falta a fauna. É sempre um pouco desapontante estar tão imerso na natureza e não se vislumbrar um único bicho. Tem de ser assim, já se sabe. A bicharada quando sente duas patas e o grasnar característico das pessoas, há muito que aprendeu a não dar nas vistas.
A meio do caminho para o Poço da Dorna, onde não chegamos por causa das horas, deparamo-nos com a maldade em estado puro. Estragar, por pura diversão. Lixo por todo o lado. Comecei a ferver descontroladamente. Os palavrões perturbaram o sossego do local.
Disse ao Cláudio que já não saia dali sem levar aquela lixeira toda. E ele, exclamou imediatamente “boa ideia!”. Dei uma gargalhada.
— Tu realmente andas um bocado desenquadrado. Volta e meia deves ficar um bocado doido aqui, no meio deste pessoal.
— Volta e meia? Todos os segundos.
— Só queria ter a tua vida…
— Até se passava!
Mais gargalhadas. Pegamos em sacos que por lá andavam e começamos a apanhar lixo. Foi uma actividade bastante mais alegre do que possa parecer. Voltamos para trás e apanhamos todo o lixo que vimos. Na ponte e no caminho para cima. Enchemos três sacos muito bem cheios. No Largo da Nogueira, zás, lixo para o contentor. Ainda não há separação de lixo, mas a chegada do contentor à povoação, deu-se há menos de um ano. Sentimo-nos satisfeitos.
Fomos regar.

A tocar no iTunes: Bold Marauder do álbum “Five Ways to Disappear” Kendra Smith (Classificação: 5)

14 Responses to “No Rio Bestança”

  1. cerveira pinto

    Olá JRF!
    De facto é lamentável a atitude das pessoas para com o vale e com o rio! Um dos problemas de se tentar preservar uma coisa é que tem que se falar nela, tem que se divulgar e, consequentemente, tornar o local mais vulnerável à presença destes energúmenos… Estes dias estive acampado na margem do Bestança, entre Chã e Soutelo. Cada vez procuro sítios mais recônditos e afastados do “chavascal” e dá para notar que é cada vez mais difícil… Este ano, mesmo junto ao rio e com o rumorejar intenso da água ouvia-se a “zoeira” infernal dos altifalantes que (decerto pendurados na torre da igreja) anunciavam “festa” na povoação de Vila Boa de Baixo. Não entendo como se pode fazer (e permitir fazer) tanto barulho… Isto é um pântano e cada vez nos atolamos mais.
    [Obrigado pelo teu acto cívico e corajoso. Já uma vez fiz o mesmo, precisamente nesse mesmo local. Junto às Cinco-Rodas é frequente limparmos o lixo que, sobretudo ao domingo é espalhado um pouco por todo o lado. As pessoas habituaram-se a viver no meio do lixo e parece qe só assim é que se sentem bem… É uma miséria. Uma das nossas preocupações sempre que vamos acampar junto ao Bestança é de que a nossa presença não seja facilmente detectada por quem ali passe seguidamente.] Abraço.
    Manuel

  2. fernando

    Numa povoação como vila de muros que só agora ganhou direito a contentores de lixo tendo os seus habitantes o uso e costume ao longo da sua existencia ou a queimar o lixo ou na piores das hipotses a abandona-lo só com o tempo é que veremos a porem o lixo no lixo.
    como a população ao longo da estrada que liga a açoreira a valverde está muito dispersa tem que os serviços camararios porem varios contentores senão muitos dos habitantes devido a serem de idade já avançada continuaram com os seus velhos costumes por uma questão de comunidade

  3. jrf

    É um paradoxo. É como quando se fazem estradas para locais bonitos, que depois ficam com cada vez menos motivos para se lá voltar. Progresso, ao que dizem.
    O revoltante é que é extremamente fácil ter o mínimo de decência e deixar os locais limpos, não estragar… Enfim.
    Não precisas, nem deves, agradecer-me ter recolhido o lixo.

  4. cerveira pinto

    Por falar em estradas… Já viste a estrada que fizeram, ou estão a fazer entre Valverde e Meridãos (Tendais). Aquilo é impressionante! Esventraram, literalmente, uma parte do monte, numa zona densamente arborizada. Aposto que em menos de dois anos toda aquela mancha florestal irá desaparecer. Mas para que é que serve aquela estrada?… Para os madeireiros?… Para os proprietários valorizarem os terrenos?… A povoação de Valverde já estava servida de estrada. Deve ser o tal progresso de que tu falas. Deve ser o tal progresso que tem feito com que quase não haja já ninguém a viver nas aldeias. (Viver em aldeias para quê?… Os pacóvios sempre acharam que era pacóvio viver na aldeia). Ha! Mas eles fazem rotundas! Estradas e mais estradas! Gastam milhares em foguetório e pontapé na bola… Isto sim é progresso. O concelho perdeu 1/5 da população nas últimas três décadas. Isso lá é problema? Há milhares de casas abandonadas e em ruínas nas cada vez mais desertas aldeias. E então? A ideia agora é fazer uma ESCOLA DE CONSTRUÇÃO CIVIL!… Viva a estupidez empedernida. Isto sim é que é progresso!!!…

  5. jrf

    Na última vez que fui jantar à associação, fomos a pé de Vila de Muros a Valverde e realmente lá estava a estrada. Ouvi uma série de críticas por parte de algumas pessoas, “muito estreita”, “muito íngreme”, “não vai servir para nada”… Como estava de noite não deu para ver o que ali estava.
    De qualquer modo, acho que já há mais de um ano tinha visto um cartaz da associação por lá, a apoiar a obra. Uma vez, estava na câmara à espera não sei de quê e também li uma acta a falar da estrada, deliberaram que iriam substituir a calçada por tapete betuminoso, por causa do preço.
    De resto, dizes tudo. Para as populações, cada vez menores, é que as estradas não são. Alguém deve sair favorecido.
    Eu até estava a gostar de ter o terreno numa estradita sem saída. Espero que não crie movimento.

  6. fernando

    Ao contrario de alguns abutres uma terra como vila de muros e valverde precisa da estrada pois num pais civilizado como portugal não se compreende que um cidadaõ para ir ao medico á casa do povo em tendais tenha que sair da freguesia entrar na freguesia de cinfães e tornar a entrar na freguesia de tendais quem não enxerga isto ou é estupido ou então deve ter alguma companhia de transportes para facturar com a desgraça alheia só é pena que quem se diz defensor de uma região tenha atitudes tão infantis para não hle dar outra designação

  7. jrf

    Não sei se se refere a mim ou ao Cerveira Pinto, ou aos dois. Mas, darei a minha opinião, do que conheço.
    Nesse âmbito, o que a região necessita é de médicos, equipamentos de saúde e condições para tratar as pessoas para além da simples constipação e não de mais estradas para lá chegar.
    Até agora, toda a gente que conheço que infelizmente teve algo mais grave, desde quedas, a crianças com pneumonia, tiveram que ir para o Porto.
    Sinceramente, a região parece-me razoavelmente servida de estradas. É evidente que nem todos poderão ter estrada à porta, tal é a dispersão das pessoas.
    Isso que diz de entrar na freguesia vizinha, não significa nada e não é isso que faz ou não faz um país civilizado. Para muita gente de Tendais, é mais perto tratar de um assunto em Cinfães do que na outra ponta da freguesia de Tendais. Além do mais, está a partir do princípio que as pessoas dessas aldeias, terão carro para o percurso, o que também não é inteiramente verdade. Conheço muita gente que não tem carro e quanto às “companhias de transportes”, a passar ali, só conheço táxis.
    Eu não posso dizer que sou contra a estrada. Posso só dizer que sou contra a destruição do património ambiental, que “nesta fase do campeonato” vale mais para mim, do que qualquer estrada. É uma grande riqueza do país e da região em particular, que continua a ser impunemente destruida.
    Se formos para a frieza dos números, aquela estrada em particular será para benefício de mesmo muito pouca gente.
    Por exemplo, eu em vez de ter gasto o dinheiro na estrada, se calhar requalificava os caminhos rurais que existem e estão a ser engolidos pelo silvado.
    De qualquer modo, agradeço-lhe ter passado por cá para deixar a sua opinião e espero que continue. Eu reparei que há certos desentendimentos entre si e o Cerveira Pinto, no fórum da ADVB. Agradecia que não os trouxesse para cá. Nesse particular, “estúpido” e “infantil” não ajudam lá muito.

  8. cerveira pinto

    Caríssimo JRF. Depois do que disseste, penso que não há que dizer mais nada… É isso, precisamente (pelo menos é a minha opinião… ainda possível de exprimir, por enquanto!). Quanto ao arrazoado que lhe dá o mote é de tal modo primário e ofensivo (e após as tuas observações), que não merece o tempo que lhe poderia dispender. Penso que é sintomático da “desgraça” em que caiu o concelho (e que se acentua a cada dia que passa). Sem (mais) comentários.
    Manuel

  9. fernando

    Acabam por me dar razão o unico meio de transporte dos locais é o taxi num pais pobre se os utentes sempre que nessecitem poderem poupar uns trocos que para vocês ou para min não passam de bagatelas e para eles são verdadeiras furtunas então vêm o verdadeiro significado de uma estrada quanto a este blog como o outro referido forum já o conheço quase desde o inicio e por acaso todos dias consunto para ver as novidades da zona pois não sendo daí por nascimento sou-o pelas minhas raizes e gosto de ver a ser defendido tanto a nivel cultural ecologico como das suas populações e quando vejo que as pessoas comentam só por ser do contra revolta-me

  10. fernando

    Mais uma razão forte para a existencia da estrada prende-se com a razão da segurança pois se começar um incendio de grandes porpoções em avitoure as gentes de enxidró vila de muros e valverde não têm para onde fugir e nem os bombeiros podem atacar o fogo da parte de cima e numa etapa em que os bombeiros por vezes querem fazer o seu trabalho e não o fazem por falta de meios eis uma boa oportunidade para se fazer algo

  11. jrf

    Aí, posso dar-lhe alguma razão. Mas, na minha lista de prioridades, estaria primeiro dotar os bombeiros de mais meios, designadamente para incêndios florestais.
    Ainda não vi a estrada bem vista de modo a ter uma opinião mais informada.

  12. cerveira pinto

    Caro JRF. Estás enganado. O que é mesmo necessário é gastar mais dinheiro em estradas, cimento, estádios e foguetório (de 50.000 contos!!!). Isso sim, resolve os nossos problemas…. (Aliás é assim que nas florestas norte-americanas resolvem os problemas dos incêndios – construíndo estradas!)

  13. jrf

    Essa dos 50.000 contos dos antigos, é onde? Não me digas que é em Cinfães! É desta que faço as malas…

  14. fernando

    Cinfães terra pequena mas enquanto houver quem coloque a politica á frente dos intresses locais numca poderá ter final feliz eis a razão dos concelhos que estão nos arredores irem pouco a pouco sendo modernizados e evoluirem enquanto que a nossa terra tenha estagnado no tempo e cada ano que passa ser mais dificil ver a luz ao fundo do tunel eu como residente na capital quando ai me desloco ano apos ano parece que faço um retorno do tempo e ai está a razão da sua deserteficação ao nivel populacional e quando á cerca de 30 anos vila de muros tinha uma população na ordem das dezenas e actualmente habitantes efectivos não passaram de umas 16 pessoas se não houver alguma modernização dentro de uma decada os unicos habitantes locais seram os veraneantes que aí se deslocaram nas suas ferias

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