Para Montemuro já é tarde

Como disse, andei quatro dias no campo. As eólicas estavam na ordem do dia, resolvi informar-me. As notícias não são nada animadoras. A instalação sem regra por tudo o que é Serra de Montemuro, é um facto consumado. Não há nada a fazer.

Aquilo que eram para ser cinco torres, são já largas dezenas e no futuro serão centenas.
A Associação para a Defesa do Vale do Bestança, não tem qualquer hipótese de contrariar o que quer que seja nesta área. Resta-lhe continuar atenta às mini-hídricas, porque os interessados não dormem e só esperam uma oportunidade de meter o pé na porta.
Como referi, sou e serei sempre totalmente a favor das energias alternativas e limpas. Cinfães, porque não, deve contribuir para esse esforço nacional. Em locais estudados, determinados e devidamente circunscritos. Uma hipótese óbvia, é a fronteira com outros concelhos, designadamente Castro d’Aire, pois nesse concelho foram já instaladas várias torres e o impacto visual e ecológico está já criado também do lado de Cinfães, quer lá tenha ventoínhas, quer não. Além disso, seriam mais dois ou três parques de dimensão considerável e bastaria.
Ao que se assiste não é a isso. Tudo o que é cume onde sopre brisa vai levar uma ventoínha. Pior, teme-se que aproveitando os acessos construídos, o próximo passo seja ligar por “estrada panorâmica” todos esses parques eólicos. É especulação, mas é científica e de boa qualidade. Há que temer pela Serra de Montemuro.
O que origina tudo isto, são valores irrecusáveis. Uns 5.000 euros anuais por ventoínha para os proprietários das terras; 200.000 euros para a respectiva junta de freguesia; mais um valor que desconheço para a autarquia que também aufere de 2,5% da energia produzida; até uma paróquia local recebeu 60.000 euros pela utilização de terras até aí sem valor… Que argumentos têm os ambientalistas para contrariar isto? Nenhuns. Zero. É uma luta muito difícil para não dizer inglória.
O Ondas2, refere um texto sobre a instalação de turbinas eólicas em reservas Sioux no Dakota do Sul acha curioso e desilude-se ironicamente o autor pois não encontrou “as habituais críticas contra as turbinas que, noutras longitudes, são consideradas monstros que desfiguram paisagens”. O browser que utiliza só lhe levou artigos e dados positivos cantando loas ao mega projecto. Acha “Estranho”.
Pois eu não, pelo contrário. Considerações sociais à parte, o texto refere alinhadas para 2005, quatro turbinas. Concluí-se que vão ser cerca de 150, num total de 110Mw instalados. É começar a fazer contas. Se lhe chama “mega”, o que chamará aos de cá… estratosféricos, gargantuanos, ou mesmo galaxianos, no mínimo.
As reservas Sioux no Dakota do Sul devem ter 2/3 do tamanho do território português. Acho que não vale a pena elaborar muito mais. Exactamente qual era a contestação que se estava à espera? Parece-me ter tudo para ser um projecto equilibrado, se os locais forem criteriosos, melhor ainda. Mais, parece que entendi que os promotores da iniciativa são os povos Sioux, designadamente através associações sem fim lucrativo como a mencionada Native Wind e empresas privadas como a Native Energy, cujos donos são as próprias tribos. Ou seja, além do Mundo beneficiar de mais energia limpa, as populações sofrem o impacto, mas também usufruem das vantagens. Portanto, a anos-de-luz do processo em Portugal.
Na pátria, pretende-se atingir os 4.500Mw. Neste mapa no Portal das Energias Renováveis, dá para ver o sacrifício exigido à Serra de Montemuro até 2004. São 36Mw instalados (o valor mais alto do país), contra 1,8Mw em Sines, por exemplo, uma zona já deveras industrializada e onde o impacto seria nulo — mas o terreno não é ao preço dos montes em Montemuro. Que será das turfeiras de altitude, um dos argumentos para integrar a Serra na Rede Natura 2000? Eu continuo sem perceber o que é essa rede e para que serve na prática.
Não sei até que ponto é exagerado o número de turbinas a instalar no país, eventualmente até é um valor correcto, ponderado e temos necessidade dessa energia. Mas tem de haver ordenamento. Não pode ser de outra forma e já está a ser.
As eólicas rumam em massa para a Serra de Montemuro, porque se trata de uma região desfavorecida, na típica inversão de valores desta sociedade do saque. Não a vão desenvolver ou tornar menos desfavorecida. O que encontram é terreno fértil e permeável aos euros do progresso, nada mais. Porque se aqui perto em Valongo ou Gondomar oferecessem o que oferecem em Cinfães para instalar torres, os proprietários mandavam-nos dar uma curva. Instalações “off-shore” também não interessam, são 30% mais caras ao que consta. Enquanto existirem montes baratos e “moderação ambiental” quanto baste, vai ser o vale tudo. No fim, o que resta para a região afectada são 2,5% da energia produzida, ecossistemas destruídos, paisagem arruinada e hélices a zunir dia e noite. A miséria e a desertificação, também ficarão, isso é certinho.
É muito triste dizer isto, mas o processo eólicas, começa a apresentar contornos não muito diferentes do da construção civil que tomou de assalto o país com a conivência das autarquias e parece fazer parte da pilhagem de recursos a que o país infelizmente continua sujeito. É uma pena.
Em nome de “mais altos valores que se alevantam”, tudo é permitido. Com a agravante que com estes o “greenwash” surge naturalmente e sem esforço. Numa palavra, “energia limpa”.

7 Responses to “Para Montemuro já é tarde”

  1. henrique pereira dos santos

    Li com muito interesse este texto, mas parte de pressupostos que não são inteiramente verdadeiros, o primeiro dos quais é o de que toda a instalação de parques eólicos está a ser feito sem regras.
    Algumas dessas regras respondem directamente às preocupações do textos (não afectação de tdos os habitats higrófilos, incluindo as turfeiras, forte condicionamento dos acessos, medidas compensatórias adequadas).
    Tudo isso pode aliás ser consultado nos estudos de impacte ambiental a que são sujeitos estes projectos (que não foi o caso dos primeiros a ser instalados).
    Subsiste um problema de fundo: o que fazer com os recursos disponibilizados pelos projectos? O que fazem as juntas de freguesia com o dinheiro que recebem? Mais acessos a parte nenhuma? Penso que existem aqui ameaças, mas oportunidades também.
    Vale a pena discutir o assunto um pouco mais fundo.
    henrique pereira dos santos

  2. jrf

    Ainda bem que fez o seu comentário, porque eu tenho tendência para o destaque da parte negativa, deixando de parte o positivo.

    Mas, eu não parto do pressuposto que não há regras. No caso de Montemuro, parece que não há regras e as que há são de muita “moderação ambiental”.
    Pede-se sempre moderação aos ambientalistas, mas nunca aos construtores, industriais, “promotores”, eólicas, hídricas, pocilgas, madeireiros e restante “tecido económico”, esquecendo sempre que o ambiente também faz parte da economia e poderia ser muito valorizado se soubessem e quisessem.

    A destruição do meio ambiente é sempre barata e favorece o particular em detrimento do país. Poluir um rio, custa pouco e até dá lucro às empresas. Despoluir, custa muito, é difícil e é sempre à conta do erário público. Uma das minhas queixas é a apetência das eólicas por locais sensíveis e protegidos.

    No caso das turfeiras que refere, eu até acho que há o cuidado de não as destruir com os acessos e colocando turbinas mesmo por cima, mas sabe que dando acesso à populaça a esses locais, o resultado será o mesmo.

    É muito oportuna a referência das estradas para parte nenhuma, porque também me começa a parecer que é isso que acontece. Aliás esse assunto também já foi aqui abordado nos comentários. Essa estrada em particular, já pude observar, não tem rigorosamente movimento nenhum. Não sei a quem serve. Talvez dê acesso a futuras “intervenções”.

    Relativamente à discussão mais a fundo, é um assunto recorrente neste país. Enquanto conversamos aqui pacatamente, vai tudo avançando sem dar cavaco a ninguém. Está tudo mais do que decidido e não tenho qualquer veleidade de influenciar o que quer que seja. Tem um exemplo bastante interessante com a destruição da Avenida dos Aliados, no Porto.

  3. henrique pereira dos santos

    A apetência das eólicas por áreas sensíveis deve-se ao facto de haver coincidência, em Portugal, entre áreas sensíveis e potencial eólico.
    Ora não se pode ser em tese a favor da energia eólica, e em concreto contra todos os projectos que materializam a tese.
    A verdade é que as eólicas têm relativamente poucos impactes face às alternativas de produção de energia eólica, e são praticamente totalmente reversíveis: no fim do ciclo de produção o território volta a estar quase como estava antes.
    Estamos de acordo quanto aos riscos do aumento de acessibilidade. Ao contrário dos primeiros parques eólicos, todos os actuais são aprovados (não pela calada, mas com consultas públicas, estando a decorrer algumas que podem ser consultadas no site do Instituto do Ambiente) com fortes condicionantes nos acessos (incluindo a colocação de cancelas. Naturalmente esses condicionamentos só serão reais se as pessoas interessadas protestarem sempre que os encontram abertos (GNR, Instituto do Ambiente, Instituto da Consrevação da Natureza, Inpsecção Geral do Ambiente, são entidades para quem poem ser canalizadas as queixas).
    Por último repare que no âmbito da aprovação destes parques eólicos há uma libertação de recursos para a região e que seria importante que quem está lá, no local, conseguisse mobilizar esses recursos para ao investimento na base económica local (no apoio à agricultura biológica, no apoio à comercialização de produtos, no apoio às pequenas unidades familiares de alojamento, na qualificação das pessoas que lá vivem permitindo-lhes estruturar as suas unidades de produção a partir da ^mais valia ambental que têm, etc.) em vez de mais acessibilidades que não melhoram nem um bocadinho a competitividade da base económica local e na realidade não criam emprego, que é a grande questão da região. Mas ou há movimento de opinião nesse sentido, ou os autarcas farão, como é natural, o que acham que os seus eleitores querem. E face à ausência de perspectiva de desenvolvimento, os eleitores quererão estradas e caminhos, mesmo que não saibam para quê.
    henrique pereira dos santos

  4. jrf

    Lá está, acho preocupante essa coincidência. Ainda mais tendo em consideração a coincidência de custos baixos/regiões desfavorecidas. Para o meu gosto meramente pessoal, são coincidências a mais.
    Não sabia que existia um ciclo de produção. Julgo que as pessoas têm como certo que a não ser que o vento mude muito, as eólicas onde chegam é para ficar.

    Ora não se pode ser em tese a favor da energia eólica, e em concreto contra todos os projectos que materializam a tese.

    É a velha máxima que neste Mundo nunca se pode fazer apenas uma coisa. De qualquer modo, é como lhe digo, sou a favor da energia alternativa e limpa e não sou contra todos os projectos. Aliás, nem sou contra nenhum em concreto. Gostava era de ter algumas certezas, que não tenho.
    De resto, esteticamente, por muito de subjectivo que possa existir, neste país de fealdade, há locais que só ganham com a instalação de parques éolicos. Bem ponderados, os parques, até em atracções turisticas se podem tornar e tornaram em certos locais. Outros locais, só perdem.
    Nos que só perdem, o que me preocupa é a fauna e flora. Ao ponto que se chegou, é essa para mim a prioridade. As empresas têm a obrigação de atenuar todo e qualquer efeito que as suas actividades provoquem no ambiente. E deviam auto-regular-se, por princípios. Já deixei de estar à espera das autoridades há muito tempo. O resultado da actividade das ditas autoridades está mais que à vista.
    No mesmo sentido, não tenho qualquer esperança na utilização criteriosa dos recursos disponibilizados (que independentemente disso acho poucos). Daqui a uns anos teremos os estudos, sobre desenvolvimento, desertificação, nível de vida… nas zonas de influência das eólicas. Veremos.

  5. henrique pereira dos santos

    Sem querer eternizar esta conversa.
    A coincidência entre as áreas naturais e as áreas de maior potencial eólica é uma coincidência lógica nas nossas condições. Só não é no litoral também porque o regime de ventos do nosso litoral é mais inconstante (sendo que as ventoínhas param acima de determinadas velocidades, portanto o bom sítio não é o que tem muito vento, mas o que tem vento constantemente entre determinadas velocidades).
    O ciclo de produção é longo (20, 30, 40 anos) mas existe, se chamei a atenção para esse facto é para marcar a diferença em relação aoutros modos de produção, como as hídricas, que introduzem alterações permanentes nos sistemas, que subsistem mesmo depois de parar a produção.
    Percebo e partilho a preocupação com a fauna e flora, mas os estudos de acompanhamento dos efeitos dos parques eólicos (incluindo os de Montemuro) não parecem indiciar razões para grandes preocupações na matéria (embora subsistam zonas de sombra do conhecimento, como o efeito das acessibilidade sobre o lobo, que é difícil de avaliar em prazos curtos, e o efeito sobre os morcegos, um impacte não expectável mas que tem sido objecto de maior atenção por terem aparecido 3 a quatro morcegos mortos por ano, sendo que não sabemos qual é a proporção entre os que morrem e os que são encontrados).
    Quanto às autoridades, gostaria de saber em concreto as razões concretas para uma posição tão radical.
    henrique pereira dos santos

  6. jrf

    Relativamente às autoridades, além da já referida construção civil, que poderia ainda detalhar mais, referindo as entulheiras por tudo o que é canto e ribanceira, não desejo concretizar mais nada — não me faltam no entanto casos concretos e pessoais.
    É mais que evidente para toda a gente que a autoridade do estado está ausente em parte incerta e que essa ausência se manifesta das mais variadas formas. Se não o é para si, não sei lhe deva dar os parabéns porque vive numa esfera que o comum do cidadão não vive, ou lamentar o facto de não observar o que se passa.
    Tem um optimismo, para mim sem fundamento, por exemplo, nas cancelas que referiu. Num tempo em que a Guarda Florestal está de rastos, os Guarda Rios inexistentes, GNR sem meios (em Cinfães ao nível do gasóleo ou papel) e as populações em debandada para o litoral, não espero nada das cancelas.
    Basta ir à foz do Bestança para ver a construção em cima do rio, zonas de protecção especial sem uma única árvore, terraplanadas a eito… Outras sujeitas a um nível de erosão extremo (provavelmente após incêndio)… Árvores abatidas para o leito do rio…
    Para estas últimas existe uma queixa apresentada às autoridades, pela ADVB, onde existe pelo menos um advogado e um juíz desembargador (querendo dizer com isto, que são pessoas que sabem como e de que forma actuar) e os resultados são rigorosamente zero. Idem, relativamente a uma entulheira para os lados de Covelas, onde já observei uma descarga em plena luz do dia (da outra margem e demasiado longe para qualquer identificação). Acabei de concretizar mais um pouco, mas precisaria da noite toda. Não vale a pena.
    Relativamente aos estudos de acompanhamento, para mim, fazem parte da moderação ambiental necessária e suficiente para a instalação do que se pretende. Nesta fase, reservo-me o direito de duvidar de todos os estudos e mais alguns, sobre todo e qualquer assunto. Aliás, nesse âmbito, há um exemplo muito mediático que é a construção do novo aeroporto. Algo me diz, que também nesse caso, “os estudos não parecerão indiciar razões para grandes preocupações na matéria”. Oxalá me engane.
    De qualquer forma, agradeço-lhe muito ter passado por cá e ter deixado todos estes esclarecimentos, que sem dúvida foram um contributo para que as pessoas possam ir formando a sua própria opinião.

  7. Voar Alto

    Todas as questões que a Energia Eólica suscita, devem ser colocadas e discutidas a fundo, visto que os efeitos a curto, médio e longo prazo dirão respeito a todos nós que assistimos à sua aparentemente excessiva implantação.
    A impressão do excessivo, ou agressivo em relação à paisagem, e as questões relativamente à influência sobre o Nosso habitat e aos interesses económicos associados, que não nos passam ao lado, não nos deverão de fato passar ao lado, e ser motivo de reflexão e reclamação junto de quem é responsável pela preservação do ambiente nesta matéria. Isso talvez não esteja a ser feito.
    O pouco que tenho a acrescentar sobre esta matéria, é um “mistério”, como algumas destas questões, a que não se chega uma resolução clara e evidente. Tendo, no contexto do nosso projecto realizado uma visita de estudo a um parque eólico em 2004, situado na Gralheira, vimos a constatar um aparente interesse e disponibilidade em receber candidaturas a emprego nestes postos de energia eólica, de autóctones. De acordo com as indicações estritas para este processo, foram enviadas candidaturas, sob a promessa de que, um candidato de uma zona de implementação de um parque eólico, e segundo os critérios apresentados, seria, então SEMPRE chamado para esta entrevista, a partir do currículo/candidatura enviada.
    Ainda, penso que não me engano ao afirmar que, nos moldes em que é implementado um parque eólico, da sua contratualização com as entidades locais, se prevê formalmente uma atenção a esta questão.
    Desconheço integrações de autóctones em parques eólicos. Gostava que me esclarecessem, se tiverem aguma indicação neste domínio ou se consideram ser esta uma questão pertinente.

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