Desculpe insistir mas é que, concordando consigo na generalidade, há aspectos em que a sua visão me parece ingénua.
Eu vivo na área de Lisboa, e raras vezes vou ao Porto. Estive na Avenida dos Aliados por duas vezes depois da “reformulação” vi-a tanto quanto o tempo me permitiu e não foi muito. Foi pouco para fazer uma análise aprofundada. Haverão, decerto, aspectos que desconheço. Mas vi por lá “erros” que não têm a ver com questões de programa. O programa define as “coisas” que se necessitam não obriga aos aspectos formais. É claro que poderia constar do programa a definição de algumas atitudes/critérios a seguir.
Desolação foi a palavra que você próprio empregou e que descreve perfeitamente a praça. Será difícil explicar-lhe em poucas palavras porque razão é essa a sensação. Um dos factores que ali falta é contraste. Seja contraste de formas, seja contraste de cores, seja contraste de textura/materiais. Falta também subtileza. Sem contraste nem subtileza – que se poderá definir como contrastes menos acentuados, menos evidentes ou mais inesperados – não fica muito que atraia o olhar.
Além de que não existe uma demarcação visível da zona para os peões da dos carros. Tenho uma vaga lembrança de um degrauzito que mal se vê no meio das pedras. E que até é mau por razões de segurança. E falta noção de escala, ou seja, da correcta proporção que cada coisa (incluindo o grau de contraste) deve assumir para que o todo seja suficientemente variado sem que hajam elementos que entrem em conflito.
E atente bem no dito “lago”. Sente-se lá ao pé e olhe bem. Pode ser que a sua vista se canse de não ver nada… É que no Parque das Nações, em Lisboa, há zonas com água, muito simples, mas muito mais interessantes. Isto não tem a ver com programa. Pelo contrário, poderia ter feito parte do programa a obrigação de manter a calçada portuguesa existente (que até contrastava mais com os edifícios).
No geral parece-me que falta ali é imaginação e sensibilidade. Até porque é muito mais obrigação do arquitecto do que do cliente sentir o viver da praça. Cabe ao arquitecto também esclarecer e aconselhar o cliente, caso as opções não sejam as melhores. Eu não compreendo como é que as pessoas que lhe deram o projecto é que deviam ter as “ideias” para a cidade. Este é o trabalho do urbanista. Ao urbanista é que cabe ter “ideias” urbanísticas depois de ter estudado a cidade em questão sob vários pontos de vista.
Se não houvesse «falta de ideias e (alguma) imaginação atrofiada» nos arquitectos a predilecção dos autarcas até seria de desejar.
Eu já não pratico arquitectura há anos, pois dediquei-me sempre também a outra actividade. Não é a voz da inveja que me move… Também não é a ausência de conhecimento actualizado, pois os meus critérios de observação estão precisamente em consonância com as informações e preocupações muito recentes que me foram transmitidas na Faculdade de Arquitectura de Lisboa (outra obra de Siza e esta eu conheço bem demais…) ao longo de um mestrado. E há hoje em dia correntes de pensamento sobre arquitectura muito diferentes da linha seguida pelo Siza.
O uso da cor não é já uma questão de gosto apenas. Há critérios com fundamento científico para a escolha da mesma. O branco não é a única cor possível nem é a melhor, nem é a cor mais adequada frequentemente. A ausência de textura não ajuda à leitura das formas, além de que a sua escassez sistemática contribui para a sensação de desolação.
Os seres humanos desenvolveram-se olhando uma natureza em tudo rica em textura e onde a cor é a norma (à excepção dos pólos gelados). A nossa psicologia necessita de um apoio visual exterior consistente com os processos psico-fisiológicos que nos estruturam. Compare algumas visões do exterior branco de Serralves com a natureza envolvente e veja se descobre as diferenças… Ou olhe bem para as formas e cores na sua quinta, a terra, as pedras, e observe as características daquilo que acha bonito.
Eu também não acho que Serralves seja tão grave quanto a Avenida. E, obviamente, não estamos falando de nenhum “pato bravo”. Há, inequivocamente, aspectos positivos, quanto mais não seja há uma receita que garante sempre alguns dividendos.
O que custa é que pessoa tão premiada, já na década de 50 pintava de branco (Casa de Chá). Algumas opções que nessa época tivessem sido arrojadas, com o tempo deixaram de o ser. Por isso é que eu falei na necessidade de inovação.
Também não posso deixar de verificar que há arquitectura muito interessante, às vezes onde menos se espera, de arquitectos menos conhecidos. Por isso eu penso que o Siza vive muito do nome e que a fama é uma bola de neve (assim como o dinheiro): quanto mais se tem mais se arranja.
Felicidades para as suas plantas. Eu não faço jardinagem pela simples razão que não tenho nenhum jardim.
Manuela Soares
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