O pessimista vs. os tecno-optimistas: Um guia para os perplexos

Quando escrevi o comentário sobre os transgénicos publicado no Abrupto, apercebi-me posteriormente que à semelhança de tantas outras, esta é uma discussão que ameaça eternizar-se. Para cada agricultor arruinado pela Monsanto, há algures na Índia uma família que com os lucros dos seus campos transgénicos, vive feliz e contente.
No fim, mais parecer técnico, menos parecer técnico, a decisão é fundamentalmente política. É mais uma decisão sobre o tão falado modelo de desenvolvimento e em última análise o tipo de sociedade em que queremos viver. Entre o meu pessimismo e os seres maravilhosos do admirável Mundo novo, os tecno-optimistas.
Os tecno-optimistas consideram que não há recurso comparável ao génio humano. A terra, a água, as florestas, os minerais, os combustíveis fósseis, a fauna, a flora e toda a energia do Sol empalidecem perante a criatividade humana. Acreditam que a tecnologia cria novos recursos que se manterão a par com o crescimento da população. Quando a escassez e a poluição se tornarem insuportáveis, novas soluções serão encontradas por mentes criativas motivadas pelas enormes riquezas que a economia de mercado será capaz de lhes proporcionar. Não precisamos de conservar recursos para o futuro pela simples razão de as gerações futuras não os necessitarem. À escassez, responde-se com substitutos. Para eles, a água potável a correr livrementes em rios e ribeiros, não poderia ser menos importante. Tecnologias de dessalinização, estações de filtragem e filtros pessoais, providenciarão no futuro toda a água que necessitaremos. Os tecno-optimistas também acreditam que a tecnologia, se necessário, limpará o ambiente. Por exemplo, com as novas lâmpadas energeticamente eficientes, ou os transgénicos que evitam a utilização de insecticidas prejudiciais.
Ao pessimista, preocupa-o que certas tecnologias criem riscos inaceitáveis. Para já apenas temos um planeta, apenas um laboratório, é fundamental que as experiências corram bem.
O pessimista acha e tem observado, que muitas das novas tecnologias criam mais problemas do que aqueles que resolvem e a humanidade corre o risco de ficar aprisionada num ciclo em que serão sempre necessárias novas tecnologias para resolver os problemas das anteriores. Por cada avanço tecnológico, há um recuo social, onde a estrutura tende a ser cada vez mais complexa e com menos retorno. Os lucros gerados pelos combustíveis fósseis e pelos computadores, já foram em grande medida captados. Para avanços similares serão necessárias doses colossais de investimento. Os ganhos com os novos avanços na agricultura, medicina e ciência têm vindo a declinar no último século, enquanto os custos para produzir cada novo avanço têm subido constantemente1.
O pessimista muitas vezes acha que a tecnologia restringe a nossa visão a soluções que já dominamos. Se a única ferramenta que temos é um martelo, tudo passa a ser prego. Inúmeros exemplos deste problema existem ao nível da gestão ambiental. Se sabemos que o milho transgénico evita o ataque da broca do milho, então os transgénicos são o nosso martelo e continuaremos a desenvolver mais e mais variedades de milho transgénico. Mesmo que a gestão integrada de pestes e a agricultura biológica se tornem num meio mais barato e eficaz de cultivar milho, essas soluções serão ignoradas porque não se encaixam na forma de pensar sobre o problema.
O pessimista acha que os recursos energéticos são limitados e promove soluções técnicas que diminuem o consumo energético. Os tecno-optimistas preferem aumentar a oferta com recurso ao que estiver disponível, seja carvão, energia nuclear ou soluções de energia verde. O pessimista acha que tecnologias novas como os transgénicos não estão prontas para sair dos laboratórios e não devem andar ao ritmo da sociedade de hoje e muito menos ao ritmo das apresentações trimestrais de resultados das empresas de biotecnologia. Os tecno-optimistas acham que este princípio de precaução para mais não serve do que atrasar o desenvolvimento e o despontar de um futuro radioso. Eventuais problemas serão resolvidos caso a caso e conforme forem aparecendo.
O pessimista sou eu e dificilmente me apanharão a consumir transgénicos por minha livre e espontânea vontade.
1 Allen, Tainter e Hoeskstra (2003, Capítulo 2) Estudos sumarizados que documentam como os ganhos dos avanços tecnológicos na agricultura, medicina e ciência têm na generalidade declinado enquanto os custos têm subido.
Referência:
Hull, Bruce R. 2006 Infinite Nature, The University of Chicago Press, Chicago.

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