Dia de calda bordalesa
Estava na cozinha e vi na casa dos meus pais uma cana a pulverizar. Era o meu pai e o senhor Miguel. Andava sulfato de cobre no ar, há que aproveitar! Pedi para me darem uma passagem no jardim, apesar de não ter grande paciência para o senhor Miguel.
Uma das árvores a precisar era a Lagestroemia indica (em português tem o detestável nome Flor-de-merenda). Chegou, passou logo ao ataque — está seca! Não está senhor Miguel, meta sulfato (e cale a caixa). Ainda não tinha pensado esta última parte, já me estava a partir um ramo à árvore para demonstrar a sua teoria.
— Que é que eu lhe disse?
— Mas eu gosto de ver!
Pronto, já estava a ferver. Demorou pouco.
Comecei a circular, deparo-me com a saqueta da calda dentro de uma floreira, a esmagar os bolbos acabados de germinar, partiu um. Explodi, o meu pai levou logo quatro berros. Afinal enganei-me… Tinha sido aquele destruidor, que continuava a pulverizar como se não fosse nada com ele.
Anunciei que ia para dentro. Que nervos.
Podem-me criticar à vontade. O jardim, está menos que estrelar, paciência. Podia estar mais limpo, mais tratado, mais tudo. Faço o que faço, nas minhas calmas. Porque não estou para aturar ninguém. Já não tenho fair-play. Há até quem garanta que nunca tive, o que é obviamente falso.
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